Colombo foi um idiota

-- Gosto de lubrificar uma venda -- disse o gordo alegremente, elevando a voz acima do sussurro do condicionador de ar. -- Beba, professor. Já estou dois na sua frente.

Levantou a vista da mesa assim que a porta do elevador abriu em frente a eles. Um homem saiu para a penumbra fresca do bar e ficou piscando, como se chegasse de repente da claridade desértica lá fora.

-- Ei, Fred, Fred Nolan -- chamou o gordo. -- Venha cá! -- Voltou-se para seu convidado. -- Um sujeito que conheci no vôo de Nova Iorque. Sente a*iacute;, Fred. Apresento o Prof. Appleby, engenheiro-chefe da nave estelar Pegassus, ou será quando for construída. Acabei de vender ao professor uma encomenda de aço bruto. Aceite um brinde a isto.

-- Com prazer, Sr. Barnes -- concordou Nolan. -- Já conheço o Dr. Appleby. Negócios -- Climax Instruments Company.

-- Hem?

-- A Climax está fornecendo o nosso equipamento de precisão -- explicou Appleby.

Barnes pareceu surpreso, depois sorriu. -- Um a zero contra mem. Pensei que Fred era agente do Governo ou um dos seus cientistas. O que vai ser, Freq? Old Fashioned? O mesmo, professor?

-- Certo. Mas por favor não me chame de professor. Não sou e isso me torna velho. Ainda sou moço.

-- Claro que é, hem Doc, Pete! Dois Old Fashioneds e outro Manhattan duplo! Acho que esperava um cientista de história em quadrinhos, com barba branca e tudo. Mas agora que o conheço, não consigo entender uma coisa.

-- O quê?

-- Bem, na sua idade, enterrar-se neste fim de mundo...

-- Não poderíamos construir o Pegassus em Long Island -- argumentou Appleby -- e este é o lugar ideal para a largada.

-- É claro, mas não é isso. É... bem, você sabe que eu vendo aço. Você precisa de ligas especiais para uma nave estelar; eu lhe vendo. Tá bom, agora que o negócio está fechado, por que quer fazer isso? Por que tentar viajar para a Próxima Centauri ou qualquer outra estrela?

Appleby parecia divertido. -- Não se pode explicar. Por que os homens tentam escalar o Monte Everest? O que levou Perry ao Pólo Norte? Por que Colombo convenceu a rainha a empenhar as jóias? Ninguém jamais chegou à Próxima Centauri, por isso vamos tentar.

Barnes virou para Nolan. -- Entende isso, Fred?

Nolan encolheu os ombros. -- Eu vendo instrumentos de precisão. Algumas pessoas cultivam crisântemos; outras constroem naves estelares. Eu vendo instrumentos.

O rosto amistoso de Barnes parecia intrigado. -- É... -- o barman trouxe as bebidas. -- Diga uma coisa, Pete, você iria na expedição do Pegassus, se pudesse?

-- Não.

-- Por que não?

-- Gosto daqui.

O Dr. Appleby concordou. -- Aí está sua resposta, Barnes, ao contrário. Há pessoas que têm o espírito de Colombo, outras não.

-- É fácil falar de Colombo -- persistiu Barnes -- mas ele esperava voltar. Vocês não. Sessenta anos... você me disse que levaria sessenta anos. Puxa, pode nem viver até chegar lá.

-- Não, mas nossos filhos chegarão. E nossos netos voltarão.

-- Mas você não é casado, é?

-- Descerto que sou. Só pais de família irão na expedição. É uma tarefa para duas ou três gerações, você sabe. -- Puxou uma carteira. -- Aqui está a Sra. Appleby com Diane. Diane tem três anos e meio.

-- É uma bonita criança -- disse Barnes com seriedade e passou-a a Nolan que sorriu e devolveu-a a Appleby. Barnes continuou: -- O que acontece com ela?

-- Vai conosco, naturalmente. Você não vai querer que ela fique num orfanato, não é?

-- Não, mas... -- Barnes virou o resto da bebida. -- Não compreendo -- admitiu. -- Quem quer outro drinque?

-- Eu não, obrigado. -- declinou Appleby, terminando o seu vagarosamente e levantando. -- Vou para casa. Homem do lar, sabe. -- Sorriu.

-- Barnes não tentou impedi-lo. Disse boa noite e observou Appleby partir.

-- Minha vez -- disse Nolan -- o mesmo?

-- Hem? Ah, sim, claro. -- Barnes levantou-se. -- Vamos para o bar, Fred, onde a gente pode beber direito. Estou precisando de uns seis.

-- Positivo -- concordou Nolan, levantando-se também. -- Qual é o problema?

-- Problema? Você viu aquele retrato?

-- E daí?

-- Bem, o que você acha? Também sou vendedor, Fred. Vendo aço. Não importa para que o comprador queira; eu vendo. Venderia uma corda para um homem se enforcar. Mas adoro crianças. Não agüento pensar que aquela graça de menininha vai nessa... essa expedição maluca!

-- E por que não? Ela estará melhor com os pais. Vai ficar tão acostumada aos pisos de aço quanto a maioria das crianças está habituada às calçadas.

-- Mas Freq, voc&ecird; não tem a menor dúvida de que eles não vão chegar, tem?

-- Podem chegar.

-- Não vão. Não têm a menor chance, eu sei. Conversei com a equipe técnica antes de sair da nossa matriz. Há nove chances em dez de que eles se incendeiem na largada. É o mínimo que pode acontecer. Se saírem do sistema solar, o que não é provável, ainda assim não chegarão às estrelas.

Pete pôs outro copo em frente a Barnes, que o virou de uma vez e falou: -- Outro, Pete. Não podem. É uma impossibilidade teórica. Vão congelar... ou assar... ou então morrerão de fome, mas nunca chegarão.

-- Talvez cheguem.

-- Não tem talvez, não. São doidos. Ande logo com o drinque, Pete. Um pra você também.

-- Já estou indo. Obrigado. -- Pete fez o coquetel, pegou uma cerveja e juntou-se a eles.

-- O Pete é um homem esperto -- disse Barnes confidencialmente. -- Nunca a gente o pega macaqueando com viagens às estrelas. Colombo, ora bolas! Colombo era um tolo. Devia ter ficado na cama.

O barman sacudiu a cabeça. -- O senhor me entendeu mal, Sr. Barnes. Se não fosse por homens como Colombo, não estaríamos aqui hoje, agora, estaríamos? Não sou do tipo explorador, mas sou um crente. Não tenho nada contra a expedição do Pegassus.

-- Você não aprova levarem crianças, aprova?

-- Bem... havia crianças no Mayflower, segundo me disseram.

-- Não é a mesma coisa. -- Barnes olhou para Nolan e de volta para o barman. -- Se Deus tivesse tido a intenção do nos deixar ir às estrelas, nos teria equipado com propulsão a jato. Me dê outro, Pete.

-- O senhor já bebem bastante até agora, Sr. Barnes.

O preocupado gordo parecia a ponto de discutir mas não o fez.

-- Vou até o Sky Room ver se acho alguém pra dançar comigo -- anunciou. -- B'noite. -- Foi balançando até o elevador.

Nolan observou-p. Pobre velho Barnes -- suspirou -- acho que você e eu temos o coração duro, Pete.

-- Não. Acredito no progresso, é só. Lembro que meu velho queria uma lei contra máquinas voadoras para evitar que os malucos quebrassem o pescoço. Dizia que ninguém jamais ia voar e o Governo devia pôr um ponto final nisso. Estava errado. Eu não sou do tipo aventureiro, mas já conheci gente demais pra saber que alguém vai sempre tentar qualquer coisa nova e é assim que se faz o progresso.

-- Você não parece ter idade suficiente para lembrar quando não se podia voar.

-- Já estou por aí há um bocado de tempo. Dez anos só aqui.

-- Dez anos, é? Nunca fica com vontade de arranjar um emprego onde possa respirar um pouco de ar puro?

-- Não. Nunca respirei ar puro quando servia bebidas na Rua Quarenta e Dois e não sinto falta agora. Gosto daqui. Tem sempre uma novidade acontecendo. Primeiro os laboratórios atômicos e depois o grande observatório e agora a Nave Estelar. Mas não é o único motivo. Gosto daqui. É o meu lar. Olhe isto.

Apanhou um copo de conhaque, um globo frágil de cristal, girou-o e jogou-o para o alto, em direção ao teto. O copo elevou-se devagar, graciosamente, pausou numa espera longa e relutante e depois começou a cair lentamente como um mergulhador em câmara lenta. Pete o observou planar perto do nariz e agarrou-o com dois dedos, pelo pé. Tornou a guardá-lo na prateleira.

-- Viu? -- disse um sexto da gravidade. Quando eu trabalhava em bares na Terra, meus calos me doíam o tempo todo. Aqui eu só peso trinta e cinco libras. Adoro a Lua.


Extraído de A Ameaça da Terra © 1977 by Livraria Francisco Alves Editora S/A
Título original: The Menace from Earth © by Robert A. Heinlein

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