A Arma

No silêncio da sala espalhavam-se as primeiras sombras da noite. Sentado em sua cadeira predileta, o Dr. Graham, cientista que chefiava a execução de importante projeto, meditava. Era tal a quietude que ele podia escutar o virar de páginas no quarto contíguo, onde seu filho folheava um livro ilustrado.

Com freqüência Graham fazia seu melhor trabalho, suas meditações mais fecundas nestas circunstâncias, sentado sozinho numa sala escura de seu apartamento após a tarefa normal do dia. Mas nesta noite seu cérebro nada produzia. Graham pensava principalmente em seu único filho -- débil mental -- que estava no quarto ao lado. Os pensamentos eram extremosos, não a angústia amarga que ele sentira anos atrás ao tomar conhecimento da condição do filho. O menino era feliz; não era o essencial? E quantos pais terão uma criança que será sempre criança, que nunca crescerá para os deixar? Sem dúvida, isto nada mais era do que uma busca de explicação racional, mas que haverá de errado na racionalização quando... Soou a campainha da porta.

Graham levantou-se e acendeu a luz antes de atravessar o corredor que levava à porta. Não estava contrariado; esta noite, a esta hora, qualquer interrupção de seus pensamentos seria bem-vinda.

Abriu a porta. Era um desconhecido.

-- Dr. Graham? Meu nome é Niemand -- disse ele. -- Gostaria de falar com o senhor. Posso entrar um instante?

Graham encarou-o. Era um homem de pequena estatura, sem nada de especial, evidentemente inofensivo -- talvez um repórter ou um corretor de seguros.

Mas pouco importava o que ele fosse. Graham deu por si a dizer:

-- Claro. Pode entrar, Sr. Niemand -- alguns minutos de conversa, pensou ele à guisa de justificação, poderiam dar outro rumo a seus pensamentos e aclarar-lhe o cérebro.

-- Sente-se -- disse, já na sala de estar. -- Quer tomar alguma coisa?

-- Não, muito obrigado -- disse Niemand, sentando-se na cadeira. Graham sentou-se no sofá.

O homenzinho enclavinhou os dedos e inclinou-se para a frente.

-- Dr. Graham, -- disse ele -- o senhor é o homem cujo trabalho cienfífico, provavelmente mais do que o de qualquer outro, eliminará a possibilidade de sobrevivência da raça humana.

Um maluco, pensou Graham. Muito tarde ele se deu conta de que devia ter perguntado a profissão do homem antes de o mandar entrar. Antevia uma entrevista embaraçosa; detestava ser rude, mas só a rudeza era eficaz.

-- Dr. Graham, a arma em que o senhor está trabalhando...

O visitante interrompeu-se e virou a cabeça para a porta aberta de um quarto de dormir, e um rapazinho de quinze anos entrou na sala. O jovem não deu pela presença do Niemand; correu para Graham.

-- Papai, você quer ler pra mim agora? -- O rapazinho de quinze anos riu o riso inocente de uma criança de quatro anos.

Graham passou o braço em volta do garoto. Olhou para o visitante, tentando adivinhar se este sabia alguma coisa a respeito do rapaz. Pela ausência de surprêsa no rosto de Niemand, Graham convenceu-se de que ele sabia.

-- Harry, -- A voz de Graham era carinhosa -- papai está ocupado. Um instantinho só Volte para o quarto; daqui a pouco vou ler pra você.

-- A "Pintinha"? Você vai ler a "Pintinha"?

-- Se você quiser. Agora vá embora. Espere. Harry, este é o Sr. Niemand.

O rapazinho sorriu acanhado para o visitante.

-- Ei, Harry -- disse Niemand, sorrindo também, e estendeu a mão. Graham, que os observava, teve a certeza de que Niemand sabia; o sorriso e o gesto dirigiam-se à idade mental e não à idade física do menino.

O rapazinho segurou a mão de Niemand. Por um momento deu a impressão de que ia subir ao colo de Niemand, e Graham puxou-o para trás delicadamente.

-- Agora volte para seu quarto, Harry -- disse ele.

O menino entreo aos pinotes no quarto, sem fechar a porta.

O olhar de Niemand cruzou com o de Graham.

-- Gosto dele -- disse Niemand com manifesta sinceridade, e acrescentou: -- Espero que aquilo que o senhor lê para ele seja sempre uma verdade.

Graham não entendeu. Niemand disse:

-- Estou me referindo a "Pintinha". É uma linda história... mas oxalá a "Pintinha" esteja sempre enganada a respeiro do desmoronamento do céu.

Graham, que apreciara a simpatia de Niemand pelo garoto, lembrou-se agora de que devia encerrar a entrevista imediatamente. Ergueu-se com essa intenção.

-- Receio -- disse ele -- que o senhor esteja desperdiçando o seu tempo e o meu, Sr. Niemand. Conheço todos os argumentos, tudo que o senhor poderá dizer eu já ouvi mil vezes. Talvez haja alguma verdade naquilo em que o senhor acredita, mas isso não me diz respeito. Sou um cientista, nada mais do que um cientista. Sim, é do conhecimento público que estou trabalhando numa arma que eu chamaria de decisiva. Mas, para mim pessoalmente, ela não passa de um subproduto da minha contribuição para o progresso da ciência. Refleti demoradamente e cheguei à conclusão de que este é o meu único interêsse.

-- Mas, Dr. Graham, estará a Humanidade preparada para uma arma decisiva?

Graham franziu a testa:

-- Já lhe expus o meu ponto de vista, Sr. Niemand.

Niemand levantou-se vagarosamente.

-- Muito bem -- disse ele -- se o senhor se recusa a discutir a questão, eu me calo -- passou a mão pela testa. Vou embora, Dr. Graham. Não sei se... posso mudar de idéia quanto à bebida que o senhor me ofereceu?

A irritação de Graham desapareceu, e disse:

-- Pois não. Que tal um uísque com água?

-- Perfeito.

Graham pediu licença e foi até a cozinha. Apanhou a garrafa de uísque, outra de água, cubos de gêlo, copos.

Quanto voltou à sala de estar, Niemand saía do quarto do menino. Ouviu o "Boa Noite, Harry" de Niemand e o contente "Boa Noite, Sr. Niemand" de Harry.

Graham serviu o uísque. Pouco depois, Niemand recusou uma segunda dose e apresentou suas despedidas.

-- Tomei a liberdade de trazer um presentinho para o seu filho, doutor -- disse Niemand. -- Entreguei-o enquanto o senhor foi buscar a bebida. Espero que me perdoe.

-- Claro. Muito obrigado. Boa noite.

Graham fechou a porta; atravessou a sala de estar, entrou no quarto de Harry e disse:

-- Muito bem, Harry. Agora lerei...

Gotas de suor surgiram subitamente em sua testa, mas ele esforçou-se para manter calmos o rosto e a voz ao avançar para a cama.

-- Posso ver isso, Harry?

Quando agarrou o objeto e se pôs a examiná-lo, as mão lhe tremiam. Pensou: Somente um louco daria um resólver carregado a um idiota.


Extraído de Ficção Científica Para Quem Não Gosta De Ficção Científica © 1969 by Editora "O Cruzeiro"
Título original: Science Fiction For People Who Hate Science Fiction © 1966 by Terry Carr (Ed.)
Tradução de José Laurênio de Melo

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