O Homem que Venus vai condenar

O homem que estava no carro tinha trinta e oito anos. Era alto, esbelto e frágil. Seus cabelos cortados en brosse, mostravam-se prematuramente grisalhos. Era dono de boa educação e de um certo sentido humorístico. Tinha um fim. Estava armado da lista telefônica. Era o homem qie Venus iria condenar.

Entrou pela Past Avenue, parou seu carro diante do n.o 17 e encostou o veículo ao meio-fio. Consultou a lista telefônica, depois saiu do carro e entrou no prédio. Examinou as caixas de correspondência, subiu a escada correndo e dirigiu-se para o apartamento 2 F. Bateu. Aguardando que o atendessem, tirou do bolso interno de seu jaquetão um caderninho preto e uma esplêndida lapiseira de prata, que podia escrever em quatro cores.

A porta abriu-se. O homem disse a uma mulher insignificante, de idade madura:

-- Boa tarde, Senhora Buchanan.

A mulher cumprimentou com a cabeça.

-- Eu me chamo Foster. Sou do Instituo de Ciências. Procuramos verificar certas declarações a propósito dos discos voadores. Não tomarei senão um minuto de seu tempo.

A Sr. Foster insinuou-se no apartamento. Já tinha visitado tal número deles que sabia, automáticamente, a disposição que tinham. Atravessou o vestíbulo com passo rápido, dirigindo-se para a sala de visitas, onde se voltou, endereçou um sorriso para a Sra. Buchanan, abriu seu caderninho numa página em branco, e, lapiseira suspensa no ar, pronta a escrever, perguntou:

-- A senhora já viu algum disco voador, Sra. Buchanan?

-- Não. E acho que tudo isso não passa de uma porção de tolices. Eu...

-- Seus filhos já viram? A senhora tem filhos, não é?

-- Sim, mas eles...

-- Quantos?

-- Dois. Esses discos voadores jamais...

-- Estão em idade escolar?

-- Como?

-- Escola -- insistiu o Sr. Foster, com impaciência. -- Vão à escola?

-- O rapaz tem vinte e oito anos -- disse a Sra. Buchanan -- e a moça vinte e quatro. Há muito tempo que eles...

-- Já sei. São casados?

-- Não... A propósito desses discos voadores vossos doutores em ciências deviam...

-- É exatamente o que fazemos -- interrompeu o Sr. Foster.

Inscreveu alguns sinais cabalísticos em seu caderninho, fechou-o e meteu-o no bolso interno, ao mesmo tempo que ali guardava sua esplêndida lapiseira.

-- Agradeço-lhe muitíssiomo, Sra. Buchanan -- disse ele, e, fazendo a volta sobre os calcanhares, saiu.

Embaixo, o Sr. Foster entrou em seu carro, abriu a lista telefônica, virou uma página e riscou um nome com sua esplêndida lapiseira. Examinou o nome que vinha logo abaixo, anotou o enderêço e deu partida. Foi até Fort

George Avenue, e parou o carro diante do número 800. Entrou no prédio, tomou o elevador automático até o quarto andar. Apertou o botão da campainha do apartamento 4 G. Enquanto esperava que lhe viessem abrir, tornou a tirar do bolso seu caderninho e a esplêndida lapiseira.

A porta abriu-se. Um homem de aspecto rebarbativo apareceu e o Sr. Foster disse:

-- Chamo-me Davis. Pertenço à Associação de Radiodifusão

Nacional. Preparamos uma lista de concorrentes para os prêmios. Posso entrar? Não tomarei mais de um minuto de seu tempo.

O Sr. Foster-Davis insinuou-se o apartamento e interrogou imediatamente o

Sr. Buchanan e sua ruiva esposa, em sua sala de estar.

-- Já ganharam algum prêmio em rádio ou televisão?

-- Não -- respondeu o Sr. Buchanan, com ar furioso. -- Jamais tivemos oportunidade. Todo mundo ganha, menos nós.

-- Todo esse dinheiro, que nada deve a ninguém, e esses refrigeradores, -- disse a Sra. Buchanan -- e viagens a Paris, e aviões...

-- Justamente por isso é que estamos fazendo esta lista -- interrompeu o Sr. Foster-Davis. -- Membros de sua família já ganharam algum prêmio?

-- Nada disso. Tudo não passa de combinação e arranjos. Não passa de batota. Eles...

-- Talvez seus filhos?

-- Não temos filhos.

-- Estou vendo... Fico muitíssimo agradecido.

O Sr. Foster-Davis deu-se à sua cenazinha dos sinais cabalísticos em seu caderninho, fechou-o e guardou-o. Deixou os Buchanan, abandonando-os à sua indignação, foi para o seu carro, riscou outro nome na lista telefônica, anotou outro endereço do nome seguinte, e deu partida.

Foi ter ao n.o 1215 da Rua Leste e parou o carro diante de um pavilhão de pedra de cantaria. Tocou a campainha da porta e encontrou-se diante de uma camareira uniformizada.

-- Boa tarde -- disse ele. -- O Sr. Buchanan está em casa?

-- Da parte de quem?

-- Chamo-me Hook -- disse o Sr. Foster-Davis. -- Estou fazendo um inquérito por ordem do Escritório de Aperfeiçoamento dos Negócios.

A camareira desapareceu, reapareceu, e conduziu o Sr. Foster-Davis-Hook para um pequene escritório onde um senhor de smoking, ar resoluto, de pé junto a uma lareira equilibrava sobre um pires uma xícara fina de Limoges. Na lareira queimava um fogo enorme.

-- Sr. Hook?

-- Sim, senhor -- respondeu o homem que Venus ia condenar.

Não retirou seu caderninho.

-- Não tomará senão um minuto de seu tempo, Sr. Buchanan. Tenho apenas algumas perguntas a fazer-lhe.

-- Tenho muita confiança no Escritório de Aperfeiçoamento dos Negócios -- declarou o Sr. Buchanan. Nosso anteparo contras as incorsões dos...

-- Eu fico muito obrigado, senhor -- interrompeu o Sr. Foster-Davis-Hook. -- Já lhe aconteceu sofrer extorsão por parte de algum cavalheiro-de-indústria?

-- Houve várias tentativas, mas jamais deixei que elas tivessem êxito.

-- Seus filhos, talvez? O senhor tem filhos, não tem?

-- Meu filho é novo demais para...

-- Que idade tem ele, Sr. Buchanan?

-- Dez anos.

-- Talvez que já tenha sofrido alguma extorsão na escola? Há certos criminosos que escolhem suas vítimas especialmente entre as crianças.

-- Não na escola que meu filho freqüenta, e onde está perfeitamente protegido.

-- Que escola é?

-- Germanson.

-- Com efeito, uma das melhores. Por acaso ele já frequentou alguma escola pública?

-- Nunca.

O homem que Venus ia condenar retirou do bolso seu caderninho e sua esplêndida lapiseira. Dessa vez sua anotação foi feita a sério.

-- Tem outros filhos, Sr. Buchanan?

-- Uma jovem de dezessete anos.

O Sr. Foster-Davis-Hook refletiu, pôs-se a escrever mudou de opinião, e tornou a fechar seu caderninho. Agradeceu ao seu hospedeiro e saiu do escritório antes que o Sr. Buchanan tivesse tempo de lhe pedir seus documentos de identidade. A camareira abriu-lhe a porta de entrada, ele desceu correndo os degraus do alpendre, atirou-se para seu carro, abriu a portinhola, e foi abatido por um tremendo golpe na têmpora.


Quando o homem que Venus ia condenar recuperou o conhecimento, pensou estar em sua cama, presa de formidável ressaca. Já estava para arrastar-se até o banheiro quando percebeu que tinha sido atirado a uma poltrona, como uma trouxa de roupa suja. Abriu os olhos. Encontrou-se numa espécie de gruta submarina. Bateu as pálpebras freneticamente. A água retirou-se.

Encontrava-se, realmente, num pequeno escritório de advogado. Um homem obeso, com ares de Papai Noel sem o trajo típico, estava de pé, diante dele. Ligeiramente de lado, sentado sobre a secretária, balançando negligentimente as pernas, via-se um jovem de maxilar quadrado, olhos muito aproximados do nariz.

-- Está em condições de entender-me? -- perguntou o homem obeso.

O homem que Venus ia condenar resmungou.

-- Podemos conversar?

Novo resmungo.

-- Joe, -- disse amavelmente o obeso - dá-me uma toalha.

O jovem esbelto deixou-se escorregar da secretária, dirigiu-se para uma bacia cheia de água que estava a um canto do aposento, e ali empapou uma toalha branca. Sacuiu-a uma vez, voltou displicentemente para a poltrona, e com a subitaneidade e a ferocidade de um tigre chicoteou com ela o rosto do homem condenado.

-- Pelo amor de Deus! -- exclamou o Sr. Foster-Davis-Hook.

-- Assim é melhor disse o homem obeso. -- Eu me chamo Herod. Walter Herod. Advogado.

Aproximou-se da secretária sobre a qual estava o conteúdo dos bolsos do homem que Venus ia condenar, apanhou a carteira e mostrou-lha.

-- Seu nome é Warbeck. Marion Perkin Warbeck. Está certo?

O homem condenado olhou para a sua carteira, depois voltou os olhos para

Walter Herod, advogado, e, finalmente, confessou a verdade:

-- Sim -- disse ele. -- Chamo-me, realmente, Warbeck. Mas nunca dou meu primeiro nome a estranhos.

A toalha molhada tornou a chicotear o rosto dele, que se encolheu em sua poltrona, irritado e desconcertado.

-- É o bastante, Joe -- disse Herod. -- Peço-te que não recomeces enquanto eu não te der ordem para isso.

Dirigindo-se a Warbeck, perguntou:

-- Por que está tão interessado nos Buchanan?

Esperou uma resposta que não veio, e continuou, muito amavelmente:

-- Joe seguiu-o. Tem visitado cinco Buchanan por noite. Trinta, até o presente. Que brincadeirinha é essa?

-- Que diabo significa tudo isso? Estamos na Rússia? -- perguntou Warbeck, indignado. -- O senhor não tem o direito de me raptar assim nem de interrogar-me conforme os métodos caros à M. V. D. Se pensa poder...

-- Joe -- interrompeu Herod, muito amavelmente. -- Quer recomeçar, por favor?

De novo a toalha chicoteou o rosto de Warbeck. Sufocado, furioso e impotente, este desfez-se em lágrimas.

Herod brincava displicentemente com a carteira.

-- Segundo seus papéis, o senhor é professor, diretor de um liceu. Eu estava persuadido de que se podia confiar nos professores, como homens honestos. Como foi que se meteu nesta extorsão de herança?

-- Que extorsão? -- perguntou Warbeck, com voz apenas audível.

-- A extorsão da herança -- repetiu pacientemente Herod. -- Com relação aos herdeiros de Buchanan. Que truque está empregando? Faz brilhar diante deles o interesse pessoal?

-- Não compreendo o que quer dizer.

Warbeck endireitou-se em sua poltrona e apontou um dedo na direção do jovem esbelto:

-- Quanto ao senhor, não recomece com essa toalha!

-- Ele fará o que eu quiser e quando eu quiser -- disse, ferozmente Herod. -- De resto, quando me apetecer hei de liquidá-lo. Por Deus! O senhor está para pisar nos meus canteiros e eu não hosto disso. Essa coisa me rende 75.000 dólares, mais ou menos, por ano. Não pense que me vou deixar lograr pelo senhor!

Houve um longo silêncio. Finalmente, Warbeck falou:

-- Sou um homem instruído -- disse ele, lentamente. -- Fale-me de Galileu ou dos poetas da Plêiade e sou o seu homem, mas confesso que há algumas lacunas no meu saber e neste momento encontro-me em presença de uma delas. Há, manifestamente, incógnitas demais.

-- Mas eu lhe disse meu nome -- falou Herod.

Com um gesto designou o jovem esbelto:

-- Ele chama-se Joe Davenport.

Warbeck sacudiu a cabeça.

-- Incógnitas no senso matemático. Fatores X. A resolução da equação. É a minha instrução que fala neste momento.

Joe pareceu tomado de pavor.

-- Senhor Jesus -- exclamou ele, sem mover os lábios. Será que este cara é mesmo pancada?

Herod examinou Warbeck com curiosidade.

-- Vou por os pontos nos iis -- disse ele. -- A mamata da herança é uma extorsão a longo prazo. O mecanismo é mais ou menos o seguinte: a História diz que James Buchanan...

-- O décimo quinto presidente dos Estados Unidos?

-- Em pessoa. A História diz que ele morreu intestado, deixando sua herança a herdeiros desconhecidos. Hoje, com os juros compostos acumulados, essa sucessão vale milhões de dólares. Morou?

Warbeck sacudiu a cabeça.

-- Eu lhe disse que era instruído -- murmurou ele.

-- Seja quem for que use o nome Buchanan é um otário para este caso. Uma variante da extorsão do prisioneiro espanhol. Mando-lhes simplesmente uma carta, dizendo-lhes que há possibilidade de que sejam eles um dos herdeiros. Pergunto-lhes se desejam que eu faça um inquérito e que me encarregue da proteção de seus interesses no assunto. Acrescento que não lhes custará senão uma soma anual ínfima a garantia de meus serviços. A maior parte cai. Em todos os recantos do país. E eis que o senhor...

-- Espere um instante -- exclamou Warbeck. -- Penso que posso tirar uma conclusão do que acaba de me dizer. O senhor descobriu que eu estava fazendo um inquérito junto às familias que se chamam Buchanan. Pensou que eu me ia meter nas suas combinações. Que ia cortar-lhe... sim, cortar-lhe o passo?

-- Pois bem -- perguntou Herod, furioso. -- Não e'isso que está querendo fazer?

-- Oh! Meu Deus! -- exclamou Warbeck. -- Tinha que acontecer uma coisa destas! A mim! Obrigado, ó meu Deus! Obrigado! Eu vos serei eternamente agradecido.

Em seu fervor e em sua felicidade, voltou-se para Joe.

-- Dê-me a toalha -- disse ele -- atire-a, apenas. Preciso limpar o rosto.

Apanhou a toalha no ar e esponjou alegremente as faces.

-- Pois bem -- repetiu Herod. -- Não é exatamente isso que está querendo fazer?

-- Não -- respondeu Warbeck. -- De forma alguma pretendo cortar-lhe o passo, mas agradeço-lhe seu engano. Pode estar certo de que agradeço. Nem pode imaginar o quanto é lisonjeiro para um professor ser tomado por ladrão.

Deixou sua poltrona, aproximou-se da secretária para retomar sua carteira e os outros objetos que lhe pertenciam.

-- Ei! Um instante! -- ganiu Herod.

O jovem esbelto estendeu o braço e agarrou o pulso de Warbeck, apertando-o como numa tenaz.

-- Por favor, pare com isso -- disse o homem que Venus ia condenar, impaciente. -- Estão vendo bem que tudo não passou de um ridículo engano.

-- Eu lhe direi mais tarde se foi um engano e direi também se foi ridículo -- replicou Herod. -- Por enquanto vai fazer exatamente o que eu lhe disser.

-- É o que o senhor pensa!

Com um movimento violento, Warbeck soltou seu pulso e atingiu os olhos de Joe, de través, com a toalha. Com um pulo só veio colocar-se atrás da secretária. agarrou um pesa-papéis e atirou-o pela janela. As vidraças tombaram com um ruído ensurdecedor.

-- Joe! -- urrou Herod.

Warbeck fêz saltar o receptor do telefone de seu suporte, compôs sobre o quadrante a indicação das informações. Tomou seu isqueiro de sobre a secretária, acendeu-o e deixou-o cair na cesta de papéis. A voz da telefonista fêz vibrar a membrana. Warbeck urrou:

-- Quero um agente de polícia!

Depois, com um pontapé, mandou a cesta transformada em tocha para o meio do aposento.

-- Joe! -- urrou Herod, sapateando sobre os papéis inflamados.

Warbeck riu com escárnio. Apanhou o receptor do telefone, que emitia gargarejos, e colocou a mão sobre o microfone.

-- Quer negociar? -- indagou.

-- Canalha! -- resmungou Joe. Tirou a mão dos olhos e deslizou para Warbeck.

-- Não! -- exclamou Herod. -- Este louco furioso berrou para chamar um "tira". É, realmente um homem honesto!

Depois, voltando-se para Warbeck, solicitou:

-- Arranjemos esta história! Anule a chamada! Trataremos de indenizá-lo. Peça tudo quanto quiser, mas anule essa chamada!

O homem condenado levou o receptor à orelha, e disse:

-- Chamo-me M. P. Warbeck. Estava consultando meu advogado, neste número, quando um idiota qualquer, com um sentido de humor bem fora de propósito, deve ter lançado esse apelo. Não é nada. Não se incomode, e torne a chamar-me, para verificação.

Desligou, acabou de meter nos bolsos seus bens pessoais e piscou para Herod. O telefone tocou. Warbeck agarrou-o, tranqüilizou a polícia, e desligou. Contornou a secretária e deu a Joe as chaves de seu carro.

-- Desça até onde está meu carro -- disse ele. -- Devem saber onde o deixaram. Abra o porta-luvas e traga-me um envelope de papel forte, que encontrará ali!

-- Bolas! Vá plantar batatas! -- cuspiu Joe.

Seus olhos ainda estavam lacrimejantes.

-- Faça o que eu lhe digo -- insistiu Warbeck, com firmeza.

-- Um instante, Warbeck -- disse Herod. -- Que vem a ser isso? Uma nova escapatória? Eu lhe disse que o indenizaríamos, mas...

-- Quero explicar-lhe por que me interesso pelos Buchanan -- replicou Warbeck. Vocês devem ter o que me é preciso para encontrar um certo Buchanan... o senhor e Joe. Meu Buchanan tem dez anos. Vale cem vezes mais do que sua miragem de alguns milhões de dólares.

Herod olhou para ele, os olhos muito abertos.

-- Desce para buscar esse tal envelope, Joe -- disse ele. -- E aproveita a descida para arranjar essa história da janela quebrada, se alguma história houver.


O homem que Venus ia condenar colocou cuidadosamente o envelope de papel forte sobre os próprios joelhos.

-- Um diretor de liceu -- explicou ele -- tem o dever de vigiar as classes. Deve seguir os trabalhos de seus alunos. Avaliar seus progressos. Resolver seus problemas, e assim por diante. Isso faz-se ao acaso. Tenho setecentos alunos no meu liceu, e, evidentemente, não posso segui-los todos.

Herod confirmou com a cabeça. O rosto de Joe mostrava-se destituído de qualquer expressão.

-- Folheando as composições da sexta série, no mês passado, -- continuou Warbeck - caiu-me nas mãos um documento espantoso.

Abriu o envelope e dele retirou uma porção de folhas de papel pautado, com borrões esparsos, e cobertas de uma letra aplicada.

-- Isto foi escrito por um menino chamado Stuart Buchanan, aluno da sexta série. Deve ter mais ou menos dez anos. O assunto da composição era: Minhas férias. Leiam-na, e compreenderão por que é absolutamente necessário que eu encontre de novo Stuart Buchanan.

Atirou as folhas a Herod, que as agarrou no ar, apanhou os óculos de aros de tartaruga e ajustou-os sobre seu grande nariz. Joe aproximou-se das costas da poltrona em que ele estava e olhou por cima do ombro do outro.

Minhas Férias

por Stuart Buchanan

Este verão fui visitar meus amigos. Tenho três amigos e são muito amáveis. De inissio tem Tommy, que mora no campo e é astronomico. Tommy construiu sozinho o telescópio dele com vidro de 15 centímetros que ele mesmo talhiou. Olha as estrelas toda a noite e deixa eu olhar também. Mesmo quando chove rãs...

-- Que diabo de história é essa?

-- Continuem. Continuem a ler -- disse Warbeck.

rãs, podemos olhar para as estrelas porque Tommy fez uma coisa pra por no fim do telescópio, que sobe como um projetor e faz um buraco no céu pra gente ver através da chuva ou de qualquer outra coisa, até nas estrelas.

-- Acabaram com a Astronomia? -- perguntou Warbeck.

-- Não estou compreendendo nada disso.

-- Tommy cansou-se de esperar pelas noites claras. Inventou algo que atravessa as nuvens e a atmosfera... um canal de vácuo... de sorte que pode observar através de seu telescópio seja qual for o tempo. Isso equivale a um raio desintegrante.

-- Quem é que está caducando aí?

-- Não estou caducando, absolutamente. Continuem a ler. Vão ver.

Depois fui na casa de Ana Maria e fiquei lá a semana inteira. Por causa que Ana Maria tem um transformador de espenafes e de tubéculos e de bagens.

-- Que diabo vem a ser um transformador de espenafes?

-- Espinafres, transformador de espinafres. A ortografia não é o forte de Stuart. os "tubéculos" são tubérculos, e as "bagens", vagens.

... tubéculos e bagens. Quando a mãe dela obriga a gente a comer essas coisas, Ana Maria aperta o botão de seu transformador e eles ficam do mesmo jeito do lado insterior, somente no de dentro fica bolo, cereja e morango. Perguntei como é que Ana Maria fazia aquilo e ela me disse: Enhv.

-- Cada vez entendo menos.

-- Entretando, é simples. Ana Maria não gosta de legumes, portanto é tão sutil quanto Tommy, o astrônomo. Transforma os espinafres em bolos de cerejas e morangos. Regala-se com aqueles bolos e Stuart também.

-- O senhor está maluco!

-- Nada disso. Esses garotos.. São gênios. Gênios? Que digo? Os gênios, ao lado deles, são imbecis. Não há qualificativo para essas crianças.

-- Eu não acredito nisso. Este Stuart Buchanan tem uma imaginação transbordante. E chega!

-- É o que o senhor pensa. E que me diz de "Enhv"? É graças a isso que Ana Maria transforma a matéria. Levei algum tempo, mas descobri o que quer dizer "Enhv". É a famosa teoria dos quanta, de Plank. E=nhv. Mas continuem a ler, não viram ainda o mais belo. Esperem para quando chegar a

Ethel, a preguiçosa.

Meu amigo George construe aviões muito bons e pequenos. George é muito desastrado com as mãos mas sabe fazer uns homenzinhos com massa de modelar. Diz o que eles devem fazer e eles construem para ele.

-- Perco o meu latim com esta história!

-- Trata-se de George, o construtor de modelos de avião.

-- Sim, e daí?

-- Mas é muito simples. Ele faz andróides em miniatura... robôs que constroem modelos para ele. Um menino inteligente, esse George! Mais leiam as passagens que se referem à irmã dele.

Sua irmã Ethel é a menina mais preguiçosa que eu já vi. É alta e gorda e detesta andar. Por isso, quando a mãe dela manda ela fazer recados, ela pença que está de volta com todos os pacotes e depois tem que se esconder no quarto de George até que dê jeito de dizer que já feiz o caminho de ida e volta. George e eu cassoamos dela por causa que ela é tão gorda e tão preguiçosa, mas ela vai no cinema sem pagar e já viu Hapalong Cassidi dezeseis vezes.

FIM

Herod olhou para Warbeck, com olhos dilatados.

-- Um ás, essa pequena Ethel -- disse Warbeck. -- Preguiçosa demais para caminhar, faz teleportagem. Depois, passa um mau momento, quando precisa dar a impressão de que as coisas correram normalmente. Precisa esconder-se, então, e George e Stuart caçoam dela.

-- Teleportagem?

-- Sim, foi bem o que eu disse. Ela passa de um lugar para o outro apenas pensando no caminho que deveria fazer.

-- Uma coisa dessas é troça! -- disse Joe, indignado.

-- Era troça até a chegada de Ethel, a preguiçosa.

-- Não acredito nisso -- falou Herod. -- Não acredito uma desgraçada palavra de tudo isso.

-- Acha que é apenas excesso de imaginação da parte de Stuart?

-- Que pode ser mais?

-- E a equação de Plank? E=nhv?

-- O garoto também inventou isso. É uma simples coincidência.

-- Parece-lhe possível?

-- Então, leu em algum lugar.

-- Um moleque de dez anos? Não pense em tal coisa?

-- Digo-lhe que não acredito em nada disso -- berrou Herod. -- Deixe-me falar com esse tratantezinho durante cinco minutos e provarei o que digo.

-- Era exatamente o que eu tinha a intenção de fazer... mas há um impedimento: o garoto desapareceu.

-- Que quer dizer com isso?

-- Volatilizou-se. Eis por que estou visitando todas as famílias Buchanan na cidade. No dia em que li essa composição mandei chamar Stuart Buchanan, na sexta série, para falar com ele, mas o pequeno havia desaparecido. Ninguém mais o viu depois disso.

-- E a família dele?

-- A família desapareceu com ele.

Warbeck inclinou-se para a frente, tenso.

-- Ouçam bem: todos os documentos concernentes aquele aluno e a sua família desapareceram. Tudo se volatilizou. Algumas pessoas tem lembrança vaga dele, mas é tudo. Desapareceram.

-- Senhor Jesus! -- exclamou Joe. -- Derreteram, todos?

-- Exatamente. Derreteram. Obrigado, Joe.

Warbeck piscou para Herod.

-- Que situação! Há uma criança que se liga afetivamente com outras crianças que são gênios. Fazem descobertas fantásticas com finalidades infantis. Ethel teleporta porque é preguiçosa demais para fazer recados. George fabrica robôs que constroem para ele modelos de aviões. Ana Maria transforma alimentos, pelo fato de detestar espinafres. Só Deus sabe o que farão os outros amigos de Stuart. Talvez exista um Mathieu que tenha inventado a máquina que faz recuar o tempo, a fim de fazer seus deveres escolares em casa, com toda tranqüilidade.

A mão de Herod fêz um débil gesto negativo.

-- Por que, subitamente, tantos gênios? Que se passou, então?

-- Não sei dizer nada a esse respeito. Radiações atômicas? Água potável fluorada? Antibióticos> Vitaminas? Hoje em dia fazemos malabarismos de tal monta que a química orgânica... Quem pode saber exatamente o que se passa? Eu gostaria bem de descobrir, mas não o consigo. Stuart Buchanan tagarelou como um garoto. Quando comecei meu inquérito, ele assustou-se e desapareceu.

-- Também ele é um gênio?

-- Muito provavelmente. Sabem bem como são os garotos. Geralmente fazem camaradagem com os outros garotos que tem suas mesmas idéias e sentem-se atraídos por coisas idênticas às que os atraem.

-- Mas que espécie de gênio seria ele? Qual é o seu talento particular?

-- Ignoro-o. Tudo quanto sei é que ele desapareceu. Apagou sua pista, destruiu todos os papéis que poderiam ajudar-me a encontrá-lo. E, simplesmente, volatilizou-se.

-- Como pode ele ter acesso ao seu fichário?

-- Até agora pergunto isso a mim mesmo.

-- E se o moleque fizesse o papel de tunante, e fosse especialista em quebra-quebra e anarquismo?

Herod teve um sorriso desmaiado:

-- Um gênio em extorsões? Um cérebro-mestre? Um Fantomas bebê?

-- Pode bem ser que ele fosse um ladrão genial, mas não se deixem influenciar pela sua fuga. Todos os garotos escapam quando tem de enfrentar uma crise. Ou então desejam que a coisa jamais tivesse acontecido ou fazem votos pare se verem a milhares de quilômetros de distância do local. É possível que Stuart Buchanan esteja a milhões de quilômetros, mas precisamos, absolutamente, encontrá-lo.

-- Só pra saber se o moleque é gira? -- perguntou Joe.

-- Não. Para encontrar os amiguinhos dele. Será preciso que eu faça um desenho para que compreendam? Quanto pagaria o exército por um raio desintegrador? Qual seria o valor de um transformador de alimentos? Se fossemos capazes de fabricar robôs vivos, que riquezas acumularíamos? Se conseguissemos fazer teleportagens, que poder uma coisa dessas nos iria dar?

Houve um silêncio sufocante, depois Herod levantou-se:

-- Sr. Warbeck -- disse ele -- cara de que temos nós, eu e o Joe? De cretinos acabados. Agradeço-lhe a sociedade que nos dá em sua mamata. Não irá arrepender-se, com certeza. Encontraremos o moleque.

É impossível, para quem quer que seja, desaparecer sem deixar o menor traço... mesmo em se tratando de um gênio do crime em potencial. Às vezes é difícil encontrar esse traço... mesmo em se tratando de um especialista em desaparições súbitas. Mas existe uma técnica profissional que os amadores ignoram.

-- O senhor cometeu, simplesmente, equívoco sobre equívoco, -- explicou Herod, muito amavelmente, ao homem condenado -- quando se pos a perseguir Buchanan atrás de Buchanan. Há sutilizas nas procuras desse gênero. Nunca se deve correr atrás de um desaparecido. O necessário é retraçar a pista, para encontrar algo que ele tenha omitido.

-- Um gênio nada omitiria.

-- Admitamos que esse garoto seja um gênio, um prodígio, um tipo ainda indeterminado. Cencedamos-lhe todos os dons que o senhor quiser, mas um garoto é um garoto, e com certeza omitiria alguma coisa. E essa alguma coisa nós a descobriremos.

Em três dias Warbeck fêz conhecimentos com os aspectos mais surpreendentes das buscas daquela natureza. Consultaram a agência do correio de Washington Heights, acerca da família Buchanan que tinha vivido naquele bairro e depois se mudara. Os Buchanan teriam deixado um enderêço para remessa da correspondência? Não!

Verificaram as listas eleitorais. Todos os eleitores estão inscritos em seu distrito eleitoral. Se um eleitor se muda de um distrito para o outro, geralmente faz-se o necessário para modificar a lista naquele sentido. Havia algum vestígio de tal modificação, tratando-se dos Buchanan? Não!

Passaram pelo escritório da Companhia de Eletricidade e Gás de Washington Heights. Todos os usuários do gás ou da eletricidade devem mandar transferir suas contas, em caso de mudança. Se deixam a cidade, pedem, geralmente, o reembolso de suas cauções. Havia algum vestígio de tal operação, para um usuário que se chamava Buchanan? Não!

Há uma lei do Estado pela qual todo motorista deve anotar no Escritório do Trânsito (Serviço de Licença para Guiar) qualquer mudança de enderêço, para evitar penalidades que impliquem em multa, prisão ou coisa ainda pior. Havia algum avido de mudança de enderêço de um certo Buchanan, no Escritório de Trânsito? Não!

Interrogaram a Agência Imobiliária R. J., proprietária e exploradora de um prédio de aluguel em Washington Heights, onde um indivíduo chamado Buchanan tinha sido locatário de um apartamento de quatro peças. O contrato de arrendamento da Agência R. J. exigia, como acontece com a maior parte das firmas desse gênero, os nomes e endereços de dois fiadores da moralidade do locatário. Seria possível ver essas fianças? Não! Não havia contrato algum com aquele nome nos arquivos da agência.

-- Pode ser que Joe tenha razão -- lamentava-se Warbeck, no escritório de Herod. -- Pode ser que esse garoto seja, verdadeiramente, um gênio do crime. Como poderia ele apoderar-se de todos esses documentos? Subornando os empregados? Terá roubado os documentos? Utilizou ameaças? Como pode fazer tal coisa?

-- Havemos de perguntar-lhs, assim que lhe tivermos posto a mão em cima -- disse Herod, com ferocidade. -- Muito bem. Até este momento aquele bendito moleque nos vem pregando grandes peças. Não esqueceu uma só astúcia. Mas resta ainda um truque que eu tinha de reserva. Vamos ser o porteiro do prédio onde ele morava.

-- Ja' o interroguei, há meses -- objetou Warbeck. -- Lembra-se vagamente da família Buchanan, e é tudo. Ignora para onde aquela gente foi.

-- Ele deve saber mais alguma coisa, alguma coisa que o garoto não se tenha lembrado de esconder, com certeza. Vamos até lá!

Foram para Washington Heights e encontraram o Sr. Jacob Rysdale jantando em seu cubículo, no subsolo do imóvel. O Sr. Rysdale não tinha vontade alguma de abandonar o seu cozido, mas a vista de uma nota de cinco dólares levou-o a mudar de opinião.

-- É a propósito da família Buchanan... -- começou Herod.

-- Eu já disse a ele o que sabia -- interrompeu Rysdale, designando Warbeck.

-- Está bem. Mas ele esqueceu-se, provavelmente, de fazer-lhe uma pergunta. Dá licença que eu a faça agora?

Rysdale dirigiu uma olhadela para a nota de cinco dólares e respondeu com um aceno afirmativo.

-- Quando alguém se muda para um prédio como este, ou dele sai, o porteiro, geralmente, toma nota do nome da empresa de mudanças, para a eventualidade de danos no prédio. Faz isso para proteger-se, no caso de que haja necessidade de processo para indenizações. Não é exato?

O rosto de Rysdale iluminou-se.

-- Com mil diabos! -- exclamou ele. -- É exato, sim. Eu tinha esquecido isso, completamente. Aquele ali nunca me perguntou tal coisa.

-- Ele não sabia do costume. O senhor tem o nome da empresa que fêz a mudança dos Buchanan?

Rysdale precipitou-se para uma prateleira cheia de livros, que ficava do outro lado do aposento. Dali retirou uma agenda muito sovada, e abriu-a. Molhou o dedo e folheou a agenda.

-- Ah! Aqui está -- exclamou ele. -- Sociedade de Mudanças Avon. Caminhão n.o G-4.

Na Sociedade de Mudanças Avon não havia o menor vestígio de jamais terem feito a mudança da família Buchanan, de Washington Heights.

-- O garoto tomou, realmente, todas as precauções -- murmurou Herod.

Mas existia um registro dos homens que tinham trabalhado com o caminhão G-4, naquele dia. Os inquiridores interrogaram aqueles homens quando eles vieram marcar o ponto, ao fim do dia de trabalho. Uísque e dinheiro depressa refrescaram-lhes a memória. Lembraram-se, vagamente, do gorducho de Washington Heights. Ele os retivera o dia inteiro, pois precisavam entregar os móveis "onde Judas perdeu as botas", em Brooklyn.

-- Meu Deus! Brooklyn! -- murmurou Warbeck.

Que enderêço, em Brooklyn? Lá para Maple Park Row. Número? Impossível recordar o número.

-- Joe, vai comprar uma planta da cidade.

Estudaram a planta das ruas do Brooklyn e encontraram Maple Park Row. Era, realmente, "onde Judas perdeu as botas", e fora de toda a circulação. Tinha doze quarteirões de casa, de comprimento.

-- E são bem aqueles desgraçados quarteirões de Brooklyn -- resmungou Joe. -- O dobro de tamanho do que em qualquer outro lugar. Eu sei.

Herod levantou os ombros.

-- Estamos esquentando -- disse ele. -- O resto será simplesmente trabalho para nossas pernas. Quatro quarteirões para cada um. Verifiquem cada prédio, cada apartamento. Peçam recenseamento de todos os garotos de mais ou menos dez anos. A seguir, Warbeck poderá controlar se eles estão vivendo sob um nome falso.

-- Há um milhar de garotos em cada centímetro quadrado de Brooklyn!

-- Há um milhão de dólares por dia, que receberemos se ele for encontrado. E, agora, pernas para que vos quero.

Maple Park Row era uma rua comprida e sinuosa, margeada de prédios de aluguel com cinco andares. Suas calçadas estavam guarnecidas com carrinhos de criança e com anciãs sentadas em cadeiras dobradiças. A borda das calçadas mostrava-se negra de veículos estacionados. As sarjetas formavam terrenos improvisados de basebol, e as linhas traçadas com giz faziam retângulos estranhos. Cada coberta de esgôto era um alvo.

-- É igualzinho a Bronx -- disse Joe, com um vestígio de nostalgia na voz. -- Já faz dez anos que eu não vou mais à minha casa, em Bronx.

Desceu tristemente a rua, dirigindo-se para o seu setor, metendo-se entre os garotos que jogavam basebol, com aquele hábito inconsciente do citadino. Mais tarde, Warbeck deveria lembrar-se com emoção daquela partida, pois Joe Davenport jamais chegou a voltar.

No primeiro dia, Warbeck e Herod pensaram que Joe havia descoberto alguma pista ardente. No segundo dia compreenderam que, fosse qual fosse o calor da pista, não poderia ter retido Joe quarenta e oito horas sobre a grelha. No terceiro dia, tiveram que se render à evidência.

-- Ele morreu -- disse Herod, calmamente. -- O moleque apanhou-o.

-- Como?

-- Matou-o.

-- Um garoto de dex anos? Uma criança?

-- O senhor quer saber qual é o genero de gênio que possui Stuart Buchanan, não é isso? Pois bem, eu acabo de dizer-lhe.

-- Eu não acredito em tal coisa!

-- Então, explique-me o que se passou com Joe.

-- Ele nos abandonou.

-- Ora essa! Não ia fazer isso, com um milhão de dólares por dia em jogo.

-- Mas onde está o cadaver?

-- Pergunte ao garoto. Deve ter inventado artimanhas capazes de fazerem inveja ao próprio diabo.

-- Como foi que ele o matou?

-- Pergunte ao garoto. Ele é que é o gênio.

-- Herod, estou com medo.

-- Também eu. Quer largar tudo?

-- Não vejo como poderíamos fazê-lo, agora. Se esse menino é de tal maneira perigoso, precisamos, de qualquer forma, encontrá-lo.

-- Virtude cívica? Não é?

-- Se acha que é isso, pode dar-lhe esse nome.

-- Pois bem, eu continuo a pensar no dinheiro.

Voltaram para Maple Park Row e ocuparam-se do setor de quatro quarteirões que tinha sido atribuído ao Joe. Eram prudentes em seus gestos, quase furtivos. Separaram-se e começaram seu inquérito, cada qual na ponta de seu setor, dirigindo-se para o centro, entrando numa casa, subindo as escadas, verificando apartamento por apartamento, depois tornando a descer para recomeçar o mesmo movimento no prédio seguinte. Era trabalho longo, saindo de um prédio sombrio, para entrar num outro. Foi assim que Warbeck viu, pela última vez, Walter Herod.

Warbeck estava sentado em seu carro, e esperava. Warbeck estava sentado em seu carro, e tremia.

-- Eu devia ir procurar a polícia -- murmurou ele, sabendo perfeitamente que não o poderia fazer. -- Esse menino possui uma arma. Algo que ele terá inventado. Algo de ridículo, como os outros. Uma luz especial, que lhe permite fogar bolas de gude no escuro. Somente acontece que ela também mata os homens. Inventou um bando de gangsters-robots para brincar de soldado e ladrão, e eles se encarregaram de Joe e de Herod. É uma criança prodígio. Perigosa. Mortal. Que farei?

O homem que Venus ia condenar saiu de seu carro e desceu a rua tropeçando, dirigindo-se para a metade do setor que pertencia a Herod.

-- Que se passará -- pensa ele -- quando Stuart Buchanan se fizer adulto? Que se passará quando todos os outros se fizerem adultos? Tommy e George e Ana Maria, e Ethel, a mandriona? Por que não fugir, agora? Que estou eu ainda fazendo por aqui?

O crepúsculo descia sobre Maple Park Row. As anciãs se haviam retirado, dobrando suas cadeiras como os árabes seuas tendas. Os carros estacionados continuavam ali. As partidas de basebol tinham terminado, mas algumas brincadeiras se organizavam à luz das lâmpadas... brinquedos com tampas de garrafas de água mineral, com cartas de marcação de basebol, com moedas amassadas... Em cima, a reverberação arroxeada da cidade tornava-se mais densa, e através dela era possível ver a cintilição de Venus, que substituía o sol, no firmamento.

-- Ele deve ter conhecimento de seu poderio -- engrolava Warbeck, furioso. -- Ele deve saber o quanto é perigoso. Por isso, esconde-se. O sentimento de culpabilidade. Eis por que nos destrói, um por um, sorrindo consigo mesmo, criança astuciosa, gênio vicioso, gênio assassino...

Warbeck estacou em pleno centro de Maple Park Row.

-- Buchanan! -- exclamou ele. -- Stuart Buchanan!

Os garotos que estavam perto dele pararam com seus brinquedos e olharam-no estupefatos.

-- Stuart Buchanan! -- a voz de Warbeck estalou, no limite de uma crise de nervos. -- Estás me ouvindo?

Sua voz furiosa foi ter além do comprimento da rua. Os brinquedos cessaram... todas as outras espécies de brinquedos.

-- Buchanan! -- urrou, ainda, Warbeck. -- Stuart Buchanan! Sai de onde estás! Sai, não importa de onde, sai de onde estás!

A gente da rua estava imóvel, em suspenso.

Na travessa, entre os números 217 e 219 de Maple Park Row, brincando de esconde-esconde atrás dos caixotes e escondeu-se ainda mais. Tinha dez anos. Usava blusão de lã, macacão azul e alpercatas. Estava tenso, e disposto a não se deixar apanhar de novo. Ia esconder-se até que pudesse precipitar-se para o pique. Enquanto se instalava mais confortavelmente entre os caixotes, viu Venus cintilar a oeste, no céu.

-- Estrela da bonança... estrela da esperança -- murmurou ele, com toda a inocência. -- Primeira estrela a brilhar, primeiro voto a se realizar. Bela estrela, que és a primeira que esta tarde eu vejo, realiza meu desejo.

Interrompeu-se, e refletiu. Depois, formulou seu anelo.

-- Que Deus nos abençoe, a papai, mamãe e a mim, assim como a todos os meus amigos, e que ele faça que eu seja sempre um bom menino, e faze o favor, estrela, permite que eu seja sempre feliz. Desejo que todos quantos queiram me aborrecer vão embora.. vão embora para bem longe... e me deixem sossegado para sempre.

No meio de Maple Park Row, Marion Perkin Warbeck adiantou-se e retomou o fôlego, preparando-se para soltar de novo um grito frenético. Depois, bruscamente, viu-se alhures, caminhando por uma estrada que era bem longa. Tratava-se de uma estrada branca, bem reta, cortando indefinidamente a noite, estendendo-se e estendendo-se pela eternidade. Uma estrada triste, solitária, sem fim, seguindo, seguindo...

Warbeck caminhava penosamente ao longo daquela estrada, autômato surpreendente, incapaz de estacar, incapaz de pensar naquele infinito fora do tempo. Caminhava a caminhava cada vez mais, incapaz de fazer meia volta. Diante dele viu pontos ínfimos de vultos apanhados de emboscada naquela estrada que corria num só sentido, e que levava à eternidade. Havia ali um ponto que devia ser Herod. Diante de Herod havia outro ponto, menor, que devia ser Joe Davenport. E diante de Joe ele podia distinguir uma longa cadeia de pontos que se tornavam cada vez menores, infinitamente pequenos. Fazendo um esfôrço considerável, conseguiu voltar-se uma vez e olhar por sobre o próprio ombro. Atrás dele, perturbado e longínquo, um vulto avançava penosamente, e atrás daquele um outro materializou-se bruscamente, e um outro e um outro...

Enquanto isso acontecia, Stuart Buchanan escondia-se atrás dos caixotes de lixo, esperando o "Pronto!" de seu amiguinho, e não tinha a menor idéia de qua acabava de liquidar Warbeck. Não tinha a mnor idéia de que liquidara

Herod, Joe Davenport e dezenas de outros. Não tinha a menor idéia de que tinha levado seus pais a fugirem de Washington Heights, que destruíra papéis e documentos, lembranças e pessoas, pelo seu simples desejo de que o deixassem em paz. Não tinha a menor idéia de que era um prodígio.

Possuía o dom de fazer realizar o seus desejos.


Extraído de Maravilhas da Ficção Científica © 1961 by Editora Cultrix Ltda.

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